Por Elena Maria Vidal
Traduzido por Andrea Patrícia

Marie-Antoinette “La Reine en Gaulle”, por Elisabeth Vigée-Lebrun
No início de 1780, Marie-Antoinette abandonou o que caracterizou o estilo ostentoso de seus primeiros anos como Rainha, substituindo-o por trajes simples. Especialmente no Petit Trianon, os vestidos longos de musselina eram usados não apenas pela Rainha, mas por todas as senhoras presentes. Conforme descrito na biografia de Rocheterie:
“No Trianon não havia nenhuma cerimônia, nem etiqueta, nem família, apenas amigos. Quando a Rainha entrava na sala das senhoras elas não abandonavam seus trabalhos nem os homens interrompiam seus jogos de bilhar ou de trictrac. Era a vida do castelo com toda a sua agradável liberdade, tais como Marie-Antoinette sempre tinha sonhado, tal como foi praticado na patriarcal família dos Hapsburgs, que era como Goethe afirmou, “Apenas a primeira família bourgeoise [burguesa] do império.” Eles todos se reuniam para o café da manhã que tomava o lugar do jantar depois de jogar cartas conversando ou caminhando e se reunindo novamente para a ceia que era servida cedo. Nenhum vestido luxuoso, nenhum adorno complicado na cabeça cuja altura exagerada forçasse o arquiteto a ampliar as dimensões das portas e provocar as repreensões de Maria Teresa. Um vestido branco de percal, um fichu(1) de renda, um chapéu de palha – era esta a toalete no Trianon, com um aspecto fresco e encantador, arrumado na suave figura e brilhante complexão da deusa do local, mas cuja situação de extrema simplicidade enfurecia o comerciante de seda em Lion abandonado pelo linho da Alsácia.
Na verdade, o gosto simples de Marie-Antoinette atraiu ainda mais crítica sobre ela que sua antiga opulência. Com seu cabelo desempoado e seus vestidos de linho, ela foi acusada não só de tentar colocar o revendedor francês de seda para fora do mercado em favor dos seus irmãos tecelões belgas e alsacianos, como também ela foi acusada de reduzir o prestígio da monarquia por ser demasiado casual. Segundo um artigo sobre o estilo de penteado da Rainha pelo estudioso Desmond Hosford:
Os excessos de Marie-Antoinette durante os anos de 1770 tinham sido criticados, mas quando a Rainha restringiu tais luxos ela foi mais uma culpada. Em 1778, Marie-Antoinette deu à luz uma filha, que não solidificou sua situação política, mas o nascimento de um príncipe herdeiro em 1781 fez com que ela tivesse finalmente cumprido seu dever para com a França. Infelizmente, segundo Léonard, “no final do ano de 1781, ou seja, quando a Rainha deu à França o primeiro delfim, que faleceu em 1789… Sua Majestade estava em perigo de perder suas charmosas mechas cuja cor suave tinha passado para moda sob o nome cheveux de la reine.”
A solução de Leonard para a desagradável situação da Rainha foi reduzir seu cabelo e abandonar o imponente penteado que ele tinha criado. Em vez disso, ele inventou o coiffure à l’enfant [penteado à La menino], um simples estilo frisé com cachos atrás, que caracterizou a segunda metade do reinado. A simplificação do penteado da Rainha foi igualmente realizada em seu traje quando ela entrou na maturidade. No entanto, a nova simplicidade da Rainha foi tão impopular quanto a sua antiga extravagância. Uma moda que Marie-Antoinette adotou, um simples vestido de musselina soltinho, ficou conhecido como a chemise à la reine [camisa à moda da Rainha]. Em 1783, Vigée-Lebrun pintou a Rainha neste vestido, e o trabalho foi tão severamente criticado assim que foi mostrado no salão da Académie Royale de Peinture et de Sculpture que a pintura teve de ser retirada. Um dos problemas fundamentais com este retrato foi que Marie-Antoinette tinha permitido a si mesma aparecer como mulher ou como um indivíduo, em vez de como a Rainha da França, em um trabalho mostrado ao público. Esta transgressão às leis da representação real na França desestabilizou os elementos performáticos da posição da Rainha. Marie-Antoinette “en chemise” não dispõe qualquer manifestação externa do seu estado de Rainha, e isso foi enervante, porque como l’Autrichienne, Marie-Antoinette já tinha sido percebida como perigosa. Anteriormente, o rumor tinha sido que a libertinagem da Rainha, arrastando todas as mulheres francesas na sua esteira, iria destruir o país, mas agora a indústria da seda atacava o traje simples da Rainha. Marie-Antoinette foi acusada de tentativa de destruir uma parte vital da economia francesa pelo uso de tecidos importados incluindo musselina e algodão para um vestido cujo estilo teve origem na Inglaterra, outro dos inimigos tradicionais da França. Neste retrato, Marie-Antoinette foi ainda acusada de aparecer em roupas de baixo, e é possível observar que o seu cabelo, também, está quase totalmente despido. Com tal importância dada aos aspectos performáticos da toalete da Rainha, não é de estranhar que este retrato, no qual o cabelo da Rainha é um elemento importante, foi facilmente percebido como um ato flagrante de desrespeito a propriedade francesa concernente à manifestação externa da dignidade real, uma rejeição subversiva à representação da Rainha, e uma degradação nacional que um comentarista classificou “a França, aos modos da Áustria, reduzida a cobrir a ela mesma com palha”. A responsabilidade por este retrato foi colocada com honestidade sobre Marie-Antoinette sem cuja autorização o trabalho não poderia nunca ter sido exibido. A tentativa de Marie-Antoinette de agir sobre seu próprio cabelo e vestuário tinha falhado, e a nova versão do retrato pintado por Vigée-Lebrun naquele mesmo ano é claramente um recuo. Na segunda versão do retrato o vestido de seda azul da Rainha foi caracterizado pelo barão von Grimm como “uma peça de vestuário mais adequada ao seu estado” e seu cabelo está cuidadosamente alinhado e empoado.
Não importa o que ela fizesse, havia aqueles que iriam reclamar e criticar. Algumas críticas fazem parte do percurso quando se é uma figura pública. No caso de Marie-Antoinette, o fato de ser austríaca fez dela um objeto de suspeição a partir do momento em que pisou no território francês, mesmo entre a família Real. Para aqueles que procuravam o poder político pela supressão do regime Real, a Rainha de Louis XVI, com sua beleza e jovem imprudência, foi o alvo perfeito.
Original aqui.
Nota da tradutora:
(1) Fichu: tipo de xale triangular.