A coragem de ser mãe de muitos

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Por Manoela

Para contextualizar, imagine a seguinte cena: uma pessoa com os olhos arregalados, tomada por espanto e divertimento dizendo “CINCO?!”. Essa a reação universal das pessoas quando respondo a pergunta “é seu primeiro filho?”. Depois de exclamar alguma variedade de “que coragem!”, “que loucura” ou “que irresponsabilidade” (Para ser justa devo admitir que as pessoas que já tem os filhos adultos costumam complementar dizendo que se pudessem voltar no tempo teriam tido mais filhos, ou dizem que no meu futuro todo o trabalho que estou tendo hoje se converterá em muita felicidade.). Na sequência todo mundo pergunta “como você consegue?”, mas ninguém espera pela resposta. A realidade é que ter cinco filhos não é como se imagina. Sim, eu consigo. E acho que a história humana prova que eu não sou nenhuma super mulher por isso.

Parece-me que as pessoas se surpreendem tanto com a vida que nós levamos porque imaginam a própria rotina e a própria vida e colocam imaginativamente nela mais crianças e isso lhes parece o caos. Mas na realidade percebo que muitas vezes meus 5 filhos dão menos trabalho do que uma única criança de algumas famílias que se surpreendem por termos tantos filhos.

Sim, nós conseguimos levar elas para fazer compras, para passear, conseguimos dar atenção exclusiva para cada uma, conseguimos fazer muita coisa. A pergunta que se segue é “você não trabalha, né?” De fato o trabalho profissional não é a minha prioridade. Aqui é a deixa para muitas mulheres admitirem que gostariam de ter muitos filhos, mas que para elas é impossível porque precisam trabalhar. Acredite, uma família numerosa não necessariamente inviabiliza o trabalho profissional fora de casa. Conheço algumas mães de famílias ainda maiores do que a minha que trabalham fora de casa. Acontece que EU optei por assumir pessoalmente a educação integral de meus filhos e com isso minha vida profissional ficou relegada a um segundo plano.

A conversa segue e minhas respostas são: nós não temos cinco babás; eu não passo o dia todo no tanque lavando roupa, nem na cozinha; nosso dinheiro não dá em árvore; sobra tempo para eu fazer as minhas coisas pessoais; eu e meu marido conseguimos conversar e dar uma atenção um para o outro e fazer todas as refeições juntos em família.

Existem muitas formas diferentes de se viver, mas vivemos no país do consenso. Em nossa sociedade o esperado é que todos vivam ordeiramente fazendo o que todo mundo faz. É como se outros modos de vida fossem realmente impossíveis. Acredito que temos um grave problema de imaginação.

Evidentemente escolher é renunciar. Percebo que as pessoas realmente não fazem ideia das delícias de se ter uma família numerosa, mas de antemão renunciaram a ela por se sentirem obrigadas a fazer as coisas como a maioria das pessoas fazem.

Qualquer pessoa que tenha um filho sabe que a vida material e a rotina mudam radicalmente com a chegada dele, mas também sabe que o amor por essa pessoa é a mais maravilhosa dessas mudanças e preenche a vida de sentido. Quem no mundo voltaria no tempo e quereria não ter esse amor para ter mais conforto, mais tempo livre ou mais dinheiro? A lógica é bem simples. Amor não se divide. Mais filhos, mais amor. Uma família maior equivale a mais pessoas que se amam e se importam umas com as outras.

Imaginar que uma família maior é apenas uma conta maior no final do mês e um amontoado de funções a mais é semelhante a imaginar que ao casar se somará todas as atribuições que se tinha na casa paterna às novas que se tem na do casal. Não é assim.

Conforme a nossa família foi crescendo todos aprenderam amorosamente a ter autonomia, a cuidar de si mesmo, e, melhor ainda, a cuidar uns dos outros. Todos aprendem a partilhar e a colaborar. Ou seja, o trabalho que recai sobre os pais não cresce na proporção que nascem os filhos, pois o trabalho que os irmãos geram vai diminuindo na medida em que eles se tornam colaboradores. As despesas que mais um filho gera não são necessariamente multiplicadas, porque muito se aproveita do que já foi adquirido para os primeiros. Se os primeiros filhos perdem a exclusividade, ganham em amor. Se perdem em quantidade de bens materiais, ganham na quantidade de bens imateriais.

Todos tendem a pensar que a criança deve sofrer porque não tem o pai e a mãe só para si, ou porque não tem todos os brinquedos que vêem nas lojas. A realidade é que qualquer pequena dificuldade que se tenha não causa um sofrimento maior do que o da criança filha única que nunca está com os pais porque eles lutam tanto para dar coisas para ela que nunca têm tempo para estar com ela. Ou o pequeno sofrimento da criança solitária que pede irmãozinhos para os pais.

Penso que pessoas valem mais do que coisas. Por isso acredito que pequenos ciúmes ou pequenas privações materiais são educativas e que tornam nossos filhos seres humanos melhores. Pequenas privações ajudam a desprender o coração das coisas e nos ensinam que não somos o centro do universo. Agora, aqueles que pensam que devemos sacrificar relações em nome de coisas, que pessoas não devem existir para que outras pessoas tenham mais coisas, nem imaginam a riqueza de uma mentalidade contrária.

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