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Por Donald De Marco

Traduzido por Andrea Patrícia

 

Depois de colocar para fora a mulher do quarto dele, Tomás de Aquino voltou à cela dele, “derrubou o tição no fogo; e se sentou naquele assento de sabedoria sedentária” aquela cadeira de filosofia, aquele trono secreto de contemplação do qual ele nunca mais levantou-se novamente.

 

O tio-avô dele era o terror barbudo Barbarossa*. Seu primo de segundo grau era o Imperador brutal Frederico II da Alemanha, o infame “Grande do Mundo”. A família dele foi relacionada com Imperador Henrique VI e com os Reis de Aragão, Castela e França, como também de uma boa metade das casas governantes de Europa. O pai dele andou em armadura empunhando bandeiras imperiais e atacou violentamente o monastério Beneditino do Monte Cassino porque o Imperador considerava este lugar como uma fortaleza do inimigo dele, o Papa. Em seu nascimento, então, o sétimo e último filho do Conde Landulf e de sua esposa, a Condessa Teodora de Teano, (1) herdou a clara e imbatível obrigação de tomar seu lugar no mundo e trazer mais brilho ao já glorioso nome de sua família. O destino dele estava talhado em pedra. Ou assim parecia.

Quando ele calmamente anunciou sua intenção de se juntar a uma ordem de pregadores recentemente formada e vestir o traje de um pobre frade – um mendigo, na realidade – sua família ficou ao mesmo tempo surpreendida e enfurecida. Era como se Napoleão tivesse insistido em permanecer um soldado por toda a duração da carreira militar dele.(2). Antecipando o pior, ele, com o mestre geral da ordem e três outros frades, tinha a intenção de deixar Roma a pé e escapar para Paris. A mãe dele despachou uma mensagem a dois dos filhos dela que eram soldados no exército de Frederico II. Ela ordenou que eles seqüestrassem seu rebento fugitivo. Os irmãos fizeram como lhes ordenaram, apreenderam violentamente a ovelha preta do seu clã e foram o aprisionaram na fortaleza de Monte San Giovanni, próximo o local de nascimento dele em Roccasecca.(3)

Durante o período de seus dezoito meses de encarceramento, foram usados todos os meios, justos ou vis, para fazê-lo desistir de sua resolução em se tornar um pregador dominicano. Os membros de sua família se revezaram em turnos recorrendo a um largo sortimento de estratégias; bondade e tratamento severo, agrados e ameaças, privação de comida e livros. A irmã primogênita dele, Marotta que foi enviada para convertê-lo foi ela mesma convertida por ele e se juntou à ordem de São Benedito. A paciência da familiar deveria estar ao ponto do esgotamento quando o seu irmão Raynaldo adotou um plano mais direto e diabólico de atraí-lo ao seu propósito. (4)

Raynaldo era um homem correto e honrado aos olhos do mundo, mas ele viveu e pensou conforme o mundo. Ele introduziu no quarto onde o seu irmão mais novo estava dormindo uma mulher que foi descrita como “cortesã do tipo mais exclusivo”, (5) “uma menina bem jovem, com todos os encantos de mulher sedutora”.(6)

O jovem frade era na ocasião um homem de raça pura de cerca de dezenove anos de idade. Ele era um indivíduo forte e saudável de estatura impressionante. Nenhuma dúvida que ele tinha aprendido, junto com os irmãos dele, como montar e andar a cavalo e executar outras artes varonis esperadas de homens da nobreza crescendo no décimo terceiro século na Itália. O período longo de prisão e privação deve tê-lo deixado vulnerável às tentações da carne. Ao ver a mulher e medir imediatamente o propósito dela, ele agarrou o cabo de um tição flamejante, a perseguiu para fora da cela e traçou a ferro quente o sinal da cruz na porta. (7) Ele não tinha a mínima disposição de argumentar com ela. Então, de acordo com um comentarista, “ele voltou à sua cela, derrubou o tição no fogo; e se sentou naquele assento de sabedoria sedentária” aquela cadeira de filosofia, aquele trono secreto de contemplação do qual ele nunca mais levantou-se novamente. (8)

A família dele pode ter sido convencida de que o prisioneiro deles era incorrigível. Eles podem ter temido a ira de Papa Inocêncio IV que, àquela altura, tinha sido alertado sobre a dissimulação que estava acontecendo. Ou a mãe dele pode ter experimentado uma mudança no coração. Por qualquer razão, permitiram logo que ele escapasse. Ele foi baixado em uma cesta e recebido pelos braços de dominicanos cheios de contentamento. Na companhia dos frades da mesma categoria dele, ele partiu então para Paris, chegando sem nenhuma outra interrupção.

Nem a linhagem dele nem a atmosfera que cercaram sua chegada no mundo não poderiam ter predito a sua carreira como cavaleiro branco de Deus, um campeão forte do espírito em sua guerra contra a carne. Antes dele nascer, porém, um ermitão santo predisse a carreira dele, dizendo a sua mãe Teodora: Ele entrará na Ordem de Frades Pregadores e tão grande será seu conhecimento e santidade que em sua época não se encontrará ninguém para igualá-lo. (9) É irônico que uma das doutrinas que ele propôs é a de que a graça é um fator mais importante do que a hereditariedade ou o ambiente.

No fim de sua vida, no fim dos seus quarenta anos, ele confiou ao seu amigo fiel e companheiro Reginald de Piperno o segredo de um dom notável que ele tinha recebido que permitiu fazer o trabalho dele sem sofrer a mais leve perturbação da carne. Depois que ele colocou a sedutora para fora de sua câmara, ele implorou a Deus seriamente que lhe concedesse integridade da mente e do corpo. A oração dele foi respondida e o dom que foi concedido a ele era aparente para os que o chamam o Doutor Angélico.

A contribuição intelectual dele era imensa, enquanto envolvendo uma síntese sem precedente entre filosofia e teologia, pensamento pagão e fé cristã e as contribuições da Antiguidade e as perspicácias do mundo contemporâneo. Por causa disto o Papa Leão XIII poderia dizer dele: Entre os Doutores Escolásticos, o chefe e mestre de tudo, ergue-se Tomás de Aquino que, como observa Cajetan, porque ‘ele venerou mais os doutores antigos da Igreja, de um certo modo parece ter herdado o intelecto de todos eles’. (10)

Comentário

A castidade é a virtude que traz o apetite sexual em harmonia com razão. Requer não a renúncia de sexualidade, mas o seu uso razoável ou correto. Há tempos quando os seres humanos deveriam se privar do prazer sexual, mas não é necessário se privar de atividades que são administradas de acordo com razão. Quando mencionamos a razão, estamos nos referindo não a um jogo abstrato e impessoal de regras separado de vida, mas à capacidade de ser realístico. A razão é uma luz que ilumina o que nós estamos fazendo de forma que nós podemos nos comportar de maneira que seja consistente com o nosso melhor interesse.

Um dos problemas fundamentais que a falta da castidade traz é uma cegueira que conduz diretamente a atos de imprudência. Uma pessoa que é inflamada através de desejos luxuriosos quase não está em uma posição de fazer o que é bom para ela ou qualquer outra. É bem conhecido que as prostitutas podem operar muito efetivamente como espiãs seduzindo seu homem primeiro e extraindo então dele a valiosa informação que ele possui. O líder militar imoderado Holofernes literalmente perdeu a cabeça dele por causa da luxúria em relação a Judite: A sandália dela encantou os olhos dele, a beleza dela levou cativou a alma dele… e a espada dela cortou a cabeça dele. (11)

A impudência tende a destruir a prudência e impedir uma pessoa de manter a autoconfiança ou integridade que precisa para “ser ela mesma” no próprio sentido do termo. Na ausência da castidade, uma pessoa é seduzida facilmente a fazer coisas que estão abaixo da dignidade dela, coisas que são vergonhosas, coisas que não estão de acordo com quem que ela verdadeiramente é. Num artigo sobre como a impudência corrompe a prudência, o filósofo tomista Josef Pieper escreve: “O abandono impudico e a auto-rendição da alma ao mundo da sensualidade paralisam os poderes primordiais da pessoa moral; a habilidade para perceber em silêncio a chamada de realidade e tomar, na retirada deste silêncio, a decisão apropriada à situação concreta de uma ação concreta. (12)

Aquino agiu prudentemente colocando a prostituta para fora. Se ele tivesse sucumbido às tentações dela, ele poderia muito bem, além de quebrar uma ordem de Deus, perder a serenidade da qual ele precisava para alcançar o estado de preeminência como filósofo e teólogo. Sem dúvida ele teve um pressentimento do que estava em jogo. Os tratados de Aquino sobre castidade indicam como ele viu claramente o dano que a impudência causa para a vida moral e intelectual. Ele lista as oito filhas da impudência (ou luxúria) como cegueira da mente, precipitação, negligência, inconstância, amor-próprio desordenado, ódio de Deus, amor excessivo por este mundo, e aversão ou desespero de um mundo futuro. (13) Ele explica que eles entornam a destruição com os quatro atos da razão e a dupla orientação da vontade. A cegueira impede a habilidade de apreender um objeto justamente. A precipitação interfere com a deliberação. A negligência se opõe ao julgamento sobre o que precisa ser feito. E a inconstância está em conflito com razão que comanda sobre o que tem que ser feito. O amor-próprio desordenado é contrário à vontade para o fim apropriado, que é Deus, enquanto ódio de Deus flui de seus proibidos atos de luxúria. O amor pelo mundo é hostil a vontade que o homem deve ter com relação ao seu fim, enquanto o desespero do mundo futuro resulta no desgosto pelos prazeres espirituais trazido pela indulgência excessiva dos prazeres da carne. 

A impudência pode ser a ruína de uma personalidade. Em “Medida por Medida”, de Shakespeare, Ângelo se oferece para poupar a vida do irmão de Isabella, Claudio, que enfrenta morte por causa de comportamento sexual impróprio, se ela consente em dormir com ele. Quando Isabella que é uma noviça em uma ordem de freiras enclausuradas discute o assunto com o irmão dela, ela fica horrorizada por descobrir o quão desprezível ela se tornou como resultado das desgraças carnais dele. “A morte é uma coisa pavorosa”, diz Claudio que tem pouca consideração pela castidade de sua irmã. “E odiosa uma vida desonrada”, responde Isabella. Claudio fica mais sério no argumento dele: “Doce irmã, me deixe viver: Qualquer pecado cometido para resgatar a vida do irmão,/A natureza desculpa de tal maneira/ Que se torna uma virtude. A resposta dela é muito enfática:

Ó animal!
Ó covarde incrédulo! O infeliz desonesto!
Queres ser feito homem à custa de meu vício?
Não é um tipo de incesto, obter vida
à custa da honra da própria irmã?

Ela rompe qualquer discussão adicional exclamando que para Claudio, a fornicação não era um lapso, mas um estilo de vida: Teu pecado não é acidental, mas um comércio, / A clemência para você se provaria prostituição: / É melhor que você morra depressa. (14) A preocupação de Claudio com o prazer sexual tinha se tornado um “comércio” ou um modo de vida à sangue frio, envenenou a alma dele ao grau que a desonra da sua própria irmã não significou nada para ele. Na realidade, o pobre Claudio tinha perdido todo o senso de certo e errado. Ele amou a própria vida dele desordenadamente e com exclusão de todas as outras vidas. A luxúria tinha tomado posse dele.

A castidade é a virtude mais honrada. Honra o ser como também o outro. Pode ser uma virtude difícil de conseguir, não porque o desejo sexual é tão intenso, mas porque está constantemente sendo despertado quando sociedade pode pensar de forma pequena. Friedrich Nietzsche, que não era nenhum amigo de Cristianismo, reconheceu a validez deste ponto. Em “Assim Falou Zaratustra”, ele começa o capítulo “Da Castidade” declarando, “Eu amo a floresta. É ruim viver em cidades: muitos dos luxuriosos vivem lá. (15) Aquino, muito tempo antes de ser famoso, entendeu muito bem o papel perigoso que a sedução ambiental poderia fazer: Não há muitos pecados por causa de desejos naturais… Mas os estímulos de desejo que a astúcia do homem inventou é qualquer outra coisa, e por causa deste pecado a pessoa peca muito. (16)

 

Notas:

  1. Jacques Maritain, St. Thomas Aquinas, trans. J. Evans and P. O’Reilly (New York: Meridian Books, 1965), p. 25.
  2. G. K. Chesterton, Saint Thomas Aquinas, in The Collected Works of G. K. Chesterton, vol. 2 (San Francisco: Ignatius Press, 1986), p. 451.
  3. Martin Grabmann, Thomas Aquinas, trans. Virgil Michel (Toronto: Longmans, Green, 1928), p. 2.
  4. Gerald Vann, Saint Thomas Aquinas (New York: Benziger Brothers, 1947), p. 43.
  5. Reginald Coffey, “St. Thomas Aquinas”, in Thomas Aquinas, Summa Theologiae (New York: Benziger Brothers, 1948), 3:3,064.
  6. Maritain, op. cit., p. 30.
  7. Ibid.
  8. Chesterton, p. 454.
  9. A profecia é lembrada por Peter Calo (1300), um biógrafo de Aquino. Veja The Catholic Encyclopedia, ed. Herbermann et al. (New York: Robert Appleton, 1912), 14:663.
  10. Papa Leão XIII, Aeterni Patris, sec. 17.
  11. Judite 16,9.
  12. Joseph Pieper, “Chastity and Unchastity”, in The Four Cardinal Virtues (New York: Harcourt, Brace and World, 1965), p. 160.
  13. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, 153, 5.
  14. William Shakespeare, Medida por Medida, 3.I.
  15. Friedrich Nietzsche, Thus Spake Zarathustra, trans. R. J. Hollingdale (Harmondsworth, Middlesex, Eng.: Penguin Books, 1969), p. 81.
  16. Pieper, loc. cit., p. 173.

 

Notas da tradução:

*Conhecido também como Barba-ruiva ou Barba-roxa

 

Original aqui