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… crítica do livro de Wendy Shalit.

Por Sarah F. Hinlicky

Traduzido por Andrea Patrícia

 

“A Return to Modesty: Discovering the Lost Virtue” de Wendy Shalit, é um estouro.

Apesar do título modesto este livro é um estouro. De forma corajosa e apaixonada, tanto Wendy Shalit desafia as massas de mulheres americanas entediadas e insensibilizadas a utilizar a intuição feminina para encontrar uma saída para o deserto emocional criado pela revolução sexual. E Shalit deixa o leitor sem nenhuma dúvida: precisamos encontrar uma solução.

Wendy Shalit

Um primeiro exemplo dessa necessidade é a descrição de Shalit dos rituais de acasalamento americano no fim-de-século. Em primeiro lugar o “ficar”. Este é um território comum a homens e mulheres jovens, tal como uma casa de fraternidade ou bar, medicam a si mesmos com bebida alcoólica, e então exercem qualquer variação de atividades sexuais, esquecidos de todos os fatores alheios à atração momentânea. A próxima etapa é terminar o relacionamento: o homem se “desembaraça” de permanecer “atado” à tentativa da mulher de ter um envolvimento emocional. A fase final é o check-up, na qual o homem busca ter certeza de que a mulher dispensada está em perfeita saúde e, se ele é especialmente esclarecido, oferece a oportunidade de falar sobre “o que deu errado”. Este processo em três fases é o que é conhecido como ter um relacionamento. Acostume-se com isso ou caia fora.

O problema é, sem nenhuma surpresa, que as mulheres estão infelizes. Shalit tem pouca utilidade para o contingente de conservadores que afirmam que a infelicidade é um grande boato feminino e lembram, afinal, que os “rapazes serão sempre rapazes”. Ao mesmo tempo, ela igualmente despreza as feministas, das quais muitas idéias, ela acredita, são responsáveis pelas vidas infelizes das mulheres. A plena verdade da questão é que em algum momento este romance deu errado terrivelmente, e tem feito da vida de mulheres jovens uma tragédia. Uma espantosa quantidade de meninas hoje está passando fome, usando drogas e purgantes, mutilando seus corpos, desperdiçando seus corações por descuidados sem-educação, suprimindo seu natural desejo de romance, e negando a sua necessidade de família e filhos. E quando elas não conseguem lidar com o este regime podre, elas dopam a si mesmas com Prozac. As mulheres têm se tornado as maiores odiadoras de mulher do mundo, tendo em aprendido a evitar todas as coisas femininas.

Shalit quer que as mulheres sejam mulheres novamente. Ela vê a perversidade profunda do projeto de androginia dos últimos trinta anos, que exige a masculinidade das mulheres e uma diminuição da masculinidade entre os homens, mas que se recusa a tolerar a feminilidade nas mulheres. É qualquer coisa menos uma libertação das antigas amarras: em vez disso, é uma supressão da feminilidade, um ataque direto sobre a bênção da diversidade. Mas agora uma contra-revolução começou, não uma que prende as mulheres ao fogão e tira seu direito de voto, mas uma que permite e até incentiva as diferenças naturais e complementares entre os sexos. Este é um manual para a contra-revolução, e cada mulher que quer ser ela mesma novamente precisa tê-lo em suas mãos. A solução de Shalit é a modéstia, a virtude, que foi muito criticada e abandonada anos atrás, juntamente com espartilhos e cintas. Sua exploração brincalhona e engajada do conceito ricamente matizado da modéstia é extensamente pesquisado e amplamente apoiado por provas recolhidas a partir de fontes tão diversas como a Glamour do ano passado e o Talmud do milênio passado. O que ela encontra não é puritanismo asfixiante que quer estragar o bom divertimento de todos, mas na verdade exatamente o oposto: um sutil, emocionante, sexy arranjo social em que os homens são homens, mulheres são mulheres, e ambos obtêm o máximo benefício a partir disto.

A modéstia é uma qualidade inerente nas meninas, defende Shalit. É a sua infinita capacidade de ficarem embaraçadas, de corar, por timidez, para recusar um elogio. O fato é que isso é tão natural que tem de ser deliberadamente tirado das meninas – tirado pelo tipo de adultos que são compelidos a destruir os mistérios devido a sua própria imoralidade – com as táticas do sexo aviltado, escravidão da moda, e Melrose Place. Meninas sem modéstia não são alegremente gatinhas do sexo liberado, no entanto. São mulheres que não têm idéia de como proteger a sua própria feminilidade inegável. A destruição da modéstia é um projeto de ódio: “É precisamente negar a especial vulnerabilidade de uma mulher e despi-la de seu caminho natural de compensar por isso que é o ápice da verdadeira misoginia”, observa Shalit. A modéstia é a defesa natural da mulher quando é respeitada pela sociedade. Na verdade, tipos feministas mal-humorados ficarão chocados ao saber, que a modéstia já serviu como o grande equalizador entre homens e mulheres, não como a espinha dorsal de dominação. (Shalit apresenta provas convincentes de que a modéstia foi estimulada em parte porque se acreditava que as mulheres gostavam muito de sexo, e elas se metem em problemas infinitos, se não aprenderem desde cedo a exercer alguma contenção.) A modéstia deu às mulheres o direito de recusar homens com intenções indignas, e por sua vez obrigou os homens a fazerem-se dignos das mulheres que desejavam. Modéstia verdadeira tem em conta sabiamente as inevitáveis diferenças entre homens e mulheres, a fim de protegê-los ambos. “Uma mulher estimulada a agir sem modéstia – observa Shalit por outro lado – expõe sua vulnerabilidade e ela torna-se então, na verdade, o sexo mais fraco”. Nesse caso, as mulheres são vítimas, enquanto os homens tornam-se predadores, como o nosso atual estado desastroso das guerras dos sexos demonstra.

Em poucas palavras, a modéstia traz à tona o melhor de todos. Mulheres modestas, Shalit diz, “vivem de maneira que torna a feminilidade uma qualidade mais transcendente, implícita, do que uma qualidade explícita, crua”. A feminilidade reforçada pela modéstia se torna tão intrigante como a Esfinge, perto da qual o sorriso de Mona Lisa esmaece. Por sua vez, isso tem sérias – e positivas – implicações para o caráter masculino. A modéstia feminina provoca uma resposta recíproca dos homens, seduzindo-os a se tornar colegas, comportarem-se de forma honrada, e desenvolver as virtudes viris merecedoras do corpo e da alma de uma mulher, especialmente a castidade, proteção e suavidade.

Toda essa conversa sobre modéstia pode soar inutilmente vaga, e Shalit nunca coloca uma definição rigorosa da mesma. Mas ao invés de ser uma falha, esta é a grande força do seu argumento, que permite que todos os tipos de mulheres em todos os tipos de situações apreciem o valor daquilo que ela está dizendo. A própria Shalit é completamente tomada por expressões religiosas sobre a modéstia, especialmente as leis judaicas. No total, porém, sua defesa da modéstia externa – especialmente no vestuário – é o corolário lógico de uma ética internalizada de contenção sexual. Daí a ligação entre o muito sensato pudor sexual como uma força social e a moral sexual como uma força religiosa.

Sua poderosa visão é que a modéstia é finalmente mais erótica do que licenciosidade. Os homens ficam mais animados, ela sugere, com olhos brilhando por trás do véu e com um fino tornozelo escapando para fora da saia longa do que com as partes do corpo expostas casualmente e as conquistas sem esforço. O exemplo mais revelador é sua comparação (com fotografias) de mulheres da virada do século descansando na praia nos seus trajes de banho terrivelmente recatados e sorrisos travessos, com as expressões estúpidas, distraídas, de nudistas devidamente reprimidos em sua praia. Travesso e modesto; entediado e nu. Algo mais do que o olho pode ver está em ação aqui. Shalit quer as regras de volta porque, sem as regras, o rebelde, o escandaloso, o emocionante, o erótico, todos desaparecem no ar.

Houve alguns heróis e heroínas modestos, é claro, que mantiveram os ideais de castidade, mesmo através da revolução sexual, mas que já não é suficiente, segundo Shalit. É impossível para a sociedade ser indiferente às diferentes escolhas das mulheres, e ela sempre vai preferir um tipo de escolha à outra. No presente momento, o “valor sobrevivente”, como ela chama, de imodéstia e imoralidade sexual é tão grande que algumas mulheres têm a força – ou mesmo a opção – para combatê-lo. E assim a resposta é tornar-se um contra-revolucionário, restabelecer o “cartel de virtude” entre as mulheres. Essa é a única maneira de trazer o cavalheiro de volta à cena na sociedade – quando é só através de honra, decência, de um toque de romance, e um compromisso de amor eterno que os homens podem ganhar o direito de partilhar a cama de uma mulher. Chame isso de injusto, mas a iniciativa cabe às mulheres mais uma vez. Shalit não tem ilusões: “Se as mulheres querem os homens sejam bons, elas tem que querer ser boas também”.

Deixe os hipócritas e os libertinos de lado, então. Shalit alcançou a verdade mais emocionante para sair de toda a revolução sexual: “A modéstia é a prova de que a moralidade é sexy”.

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A autora:

Sarah F. Hinlicky, uma escritora que vive em Nova York, é Assistente Editorial na revista First Things.

Original aqui