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Por Donald DeMarco*

Traduzido por Andrea Patrícia

 

 

Não é possível melhorar nossa vida pessoal ou nossa sociedade sem a aquisição da virtude. Nós relutamos em fazer isso, no entanto, pois entendemos que a nossa única responsabilidade moral é eliminar o vício, coisa que pensamos que podemos realizar com um mínimo de esforços. Mas nós tranqüilizamos a nós mesmos numa perigosa condescendência moral quando partimos do princípio que o vício não é um inimigo mais temível do que uma lufada de ar frio que podemos manter fora fechando a porta na sua cara. Também é perigoso persistir nesses slogans como se fossem suficientemente potentes para manter o diabo longe. Apenas a dizer não à droga, ao racismo, ao preconceito, e a todas as formas de agressão sexual não os transformam em gentis ovelhas que irão embora obedientemente mesmo que o nosso “não” queira realmente dizer não. O vício, portanto invade e habita nossas vidas. E enquanto não formos capazes de discernir a sua presença prolongada, continuaremos feridos pelo crime. Mas o crime é nada menos que o impróprio bônus que o vício sempre prometeu.

Dizer “não” ao vício e exprimir indignação frente ao crime logicamente pressupõe a presença em nós de positivas e protetoras virtudes. Mas nós muitas vezes não damos atenção a estas virtudes mesmo quando não temos feito nada para compreendê-la, adquiri-la, ou desenvolvê-la. Tentar se tornar virtuoso excluindo pura e simplesmente o vício, no entanto, é tão irrealista quanto tentar cultivar rosas exclusivamente apenas eliminando as ervas daninhas. Depois de livrar o jardim das ervas daninhas, deve-se ainda plantar sementes e cuidar para que elas cresçam; caso contrário, as ervas daninhas simplesmente regressarão. A melhor forma de excluir os vícios é expulsá-los pela presença de fortes virtudes. Se nos opomos ao crime, devemos nos opor ao vício, e se nos opomos ao vício, devemos promover a virtude.

Quando faltam fortes virtudes, os vícios apressam-se a encher o vazio muitas vezes assumindo a máscara da virtude. Dorothy Sayers tem sua própria lista de tais falsas virtudes, que ela chama de “Sete Virtudes Mortais”. São elas: Respeitabilidade, Infantilidade, Timidez Mental, Estupidez, Sentimentalidade, Disposição para condenar, e Depressão do espírito. [1] Sayers é consciente do quão fácil foi para os seres humanos ao longo dos tempos perverter as sete virtudes fundamentais em sete miseráveis imitações. As sete virtudes que são a pedra angular da vida moral compõem-se de três virtudes teologais – Fé, Esperança e Amor -, juntamente com as quatro virtudes cardeais de Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança. As três primeiras, por vezes chamadas de virtudes sobrenaturais, são infundidas no batismo e correspondem à vida de graça; enquanto as virtudes cardeais, embora não completamente fora das fontes da graça, são sua contraparte mais naturalista. As virtudes teologais nos dão um foco que nos transcende sem nos excluir. Desta forma elas são os antídotos perfeitos à auto-centralidade e seu conseqüente vício, o orgulho. As virtudes cardeais, por vezes chamadas “As Virtudes Humanas, nos dão um foco dentro de nós que não exclui os outros – auto-domínio para o efeito da auto-doação. As Sete Imitações Mortais que mais de perto formam um paralelo destas sete grandes virtudes como os seus sinistros contrários são, respectivamente, Credulidade, Expectativa, Sentimentalidade, Esperteza, Legalismo, Imprudência, e Mornidão. Estas zombarias das virtudes se assemelham aos sete pecados mortais – Orgulho, Avareza, Inveja, Ira, Paixão, Gula, e Preguiça – que são totalmente destruidoras de personalidade.

Não nascemos virtuosos. A natureza não nos impregna de bons hábitos. Nem o desenvolvimento moral acontece por osmose cultural. As virtudes devem ser buscadas.

Vocês não foram feitos para viver como brutos, mas para seguir virtude e conhecimento. [2]

É precisamente a busca vigorosa, aquisição, e cultivo de virtudes que nos permitem vencer o vício. Cair no vício é tão fácil como cair de uma escada. Adquirir a virtude, no entanto, é mais árduo. “A vida do pecado é uma queda da coerência para o caos”, segundo São Tomás de Aquino, “a vida de virtude uma escalada de muitos ao Único”. [3]

 

A noção da virtude como um processo de ascensão lento, metódico, também aparece na obra de Santo Agostinho. Em uma famosa passagem, diz ele, “Nós fazemos uma escada para fora dos nossos vícios se nós derrubamos os vícios sob nossos pés. [4] Henry Wadsworth Longfellow escreveu um tributo poético a esta frase Agostiniana que inclui as seguintes estrofes:

Nós não temos asas, não podemos levantar vôo; Mas nós temos pés para escalar e subir lentamente os degraus, mais e mais, as cimeiras nubladas do nosso tempo. [5]

 

Virtude e vício são adversários. Na verdade, eles estão fechados em combates mortais um contra o outro. Nenhuma virtude é perfeita se não foi vitoriosa na sua luta com os respectivos vícios. A pessoa virtuosa avança esmagando os vícios sob os pés. É neste contexto que nós começamos a apreciar a qualidade positiva e mesmo heróica que a virtude possui. Longe de ser apenas bons modos ou fingimento social, a virtude é realmente a perfeição da pessoa humana no nível mais elevado do seu ser – seu valor moral, que quer dizer, sua humanidade.

Amor não é simplesmente uma virtude entre outras, mas a forma de todas as virtudes. Cada virtude encontra sua humanidade essencial e a sua nobreza no amor que a anima. Em contrapartida, o amor seria impotente se não fossem as diversas virtudes que resistem às presentes dificuldades e entregam a sua mensagem de amor onde o amor é necessário. O Amor é uma proeza; a virtude é o canal que entrega o amor. Tal como as mangueiras de incêndio são necessárias para transportar e dirigir a água da sua nascente até onde o fogo grassa, a virtude é necessária para estabelecer uma conexão entre a fonte do amor e o local onde o amor é necessário. Ninguém, não importa quão amorosa pretenda ser, pode ser de qualquer ajuda a ele mesmo ou qualquer um sobre um plano moral se ele não possuir virtude. Um soldado sem coragem, um médico descuidado, um professor sem paciência, pais sem prudência, um cônjuge sem fidelidade, um sacerdote sem a fé, um líder sem determinação, um magistrado sem integridade, e um amigo sem lealdade são todos os parceiros do fracasso, não porque lhes falta amor, mas devido à falta da virtude para exprimi-lo.

Vinte virtudes têm sido selecionadas para descrever vinte e oito diferentes formas pelas quais o amor pode ser expressado. Segundo os antigos matemáticos, vinte e oito é um número perfeito porque é a soma dos seus divisores (1 + 2 + 4 + 7 + 14). Entre números de dois dígitos apenas o vinte e oito é “perfeito”. Assim, é um número adequado para utilizar na descrição poderes que tendem à perfeição dos homens.

Cada virtude é apresentada no contexto de histórias tiradas da vida ou da literatura. O objetivo aqui é permitir que o valor moral de cada virtude tenha um apelo mais imediato. Uma vez que as virtudes residem principalmente nas ações pessoais, em vez de na mente, essas histórias representam melhor “o coração da virtude”. Ao mesmo tempo, é importante entender as especificidades de cada virtude e como as virtudes se relacionam umas com as outras para formar um todo orgânico ou “sinfônico”. Por isso, cada capítulo tem um comentário filosófico que contribui para apurar e refinar a identidade e a complementaridade das vinte e oito virtudes apresentadas. Assim virtude é apresentada ao leitor de uma forma imediata e intuitiva, bem como no que é discursivo e intelectual.

A pessoa virtuosa é uma pessoa de caráter, uma pessoa inteira, uma pessoa plenamente realizada. A virtude, como Platão ensinou, é a saúde, a força, e a excelência de uma alma em comunhão com a realidade. É a virtude mais do que qualquer outra coisa que preenche a pessoa com um senso de si mesma, de seu propósito, de sua vitalidade, e de sua felicidade.

 

Notas:

  1. Dorothy Sayers, Creed or Chaos? (London: Methuen, 1947), p. 23.
  2. Dante Alighieri, “Inferno”, The Divine Comedy, trans. by Henry F. Cary, canto 26, pp. 116-17.
  3. Thomas Aquinas, Summa Theologiae I-II, 73, I.
  4. Augustine, “Sermon no. 176, On the Ascension of the Lord”, in J. P. Migne (ed.), Patrologiae Latinae (1845), vol. 38:949 “De vitiis nostris scalam nobis facimus, si vitia ipsa calcamus.”
  5. Henry Wadsworth Longfellow, “The Ladder of Saint Augustine”, in Favorite Poems: Henry Wadsworth Longfellow (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1947), p. 304.

 

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*Este artigo é o Prólogo do livro “The Heart of Virtue”, de Donald DeMarco.

Original aqui