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“A auto-apresentação diz respeito a poder”, concorda a estudiosa de moda Elisabeth Wilson, e isso tem com freqüência significado que a moda feminina tem atraído estereótipos masculinos. Ao contrário da crença popular roupas masculinas (como calças) não são necessariamente funcionalmente superiores às roupas femininas, mas são simbolicamente poderosas. Uma propaganda de ternos mostra uma mulher de pé numa mesa de conferência com a legenda: “Como ser levado(a) a sério”. A legenda de outra propaganda cita Walt Whitman: “Resista muito, OBEDEÇA POUCO”. Ela mostra uma mulher sentada no banco de trás de um carro, vestindo uma jaqueta de couro preto e botas de vaqueiro. Historicamente, os homens têm tido tanto mais poder físico (como implicado pela jaqueta de couro preto) quanto maior poder sócio-econômico (como refletido num terno caro).

Assim ternos e botas de vaqueiro são, da mesma forma, afirmações do poder masculino – até mesmo, talvez especialmente, quando mulheres os usam. Quer uma mulher se vista de maneira jovial e durona como um motociclista, rica e importante como um capitalista, ou com os saltos altos de uma dominadora – de certa forma ela se disfarça de Mulher Fálica. Não quero dizer que as mulheres desejam ter um pênis, mas que, assim como os homens, elas querem o poder que a sociedade patriarcal tem atribuído ao falo que é simbolizado pelas roupas fálicas. Mas saltos altos e negligées também podem servir como a insígnia do poder.

“As mulheres mandam, OK?”, diz o jovem designer americano Marc Jacobs. “Mulheres no controle, de salto alto!” Versace descreve as mulheres modernas como “mandando… nos homens com mão de ferro”. Isso não é literalmente verdade, é claro, mas pode ter alguma realidade psíquica tanto para homens quanto para mulheres. O artista Allen Jones (criador de imagens fetichistas controvertidas) insiste que apesar das feministas terem criticado ilustrações erotizadas de mulheres fálicas em borracha ou couro, “essas imagens vêm do mesmo sistema que a roupa poderosa”. Essa idéia fornece uma pista importante o que toca à popularidade das tendências fetichistas: elas fazem com que a mulher pareça poderosa, muito poderosa.

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Durante os anos 70 e 80 as mulheres que andavam na moda tentaram evitar parecer femininas demais, porque associavam a feminilidade à impotência e a não serem levadas a sério. Mesmo agora muitas mulheres discutem sobre a “moralidade” de itens como espartilhos e saltos altos, com o pretexto de que eles alcovitam fantasias (sexualistas) masculinas. Mas Mower insiste:

Acho que estamos alcovitando nossas próprias fantasias… Não queremos ser homens. Não queremos usar esses ternos… Somos mulheres, por isso queremos usar roupas de mulheres.

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O que a Vogue chama de look forte e sensual se tornou o paradigma da moda contemporânea. Isso é resultado direto da liberação feminina. Pois apesar de feministas vociferarem contra a moda por manter a mulher numa “armadilha de beleza”, de fato a história da moda revela um quadro mais complexo.(…) Quando as mulheres se tornaram mais independentes elas adotaram tanto a roupa masculina quanto roupas que revelam o corpo.

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Trechos do livro “Fetiche: Sexo, Moda e Poder”, de Valerie Steele. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. p.192, 193.