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Por Marian T. Horvat

Traduzido por Andrea Patrícia

 

Um tema muito importante é abordado no capítulo 11 do Small Manual of Civility [Pequeno Manual de Civilidade], a necessidade de discrição no dia-a-dia. É especialmente importante para nós hoje, porque se tornou um sinal do homem destemido, de sucesso, dizer o que pensa, ou descobrir e revelar os defeitos dos outros para ajudar alguém a chegar à frente. Este não é apenas o comportamento grosseiro, como também não é uma maneira Católica de agir.

Discrição são o tato e a polidez que se aprende em casa desde a mais tenra idade. Se uma criança ouve seus pais constantemente difamando e encontrando defeitos nos outros – mesmo bons amigos e parentes próximos, ela vai aprender a fazer o mesmo. Se ele ouve sua mãe ou seu pai discutindo suas insuficiências ou falhas com os outros, ele não vê motivo para ser discreto sobre seus defeitos ou sobre assuntos particulares da família. Indiscrição é uma espécie de círculo vicioso – um ato indiscreto provoca e leva a outro. Logo, a harmonia e a gentileza da vida – dentro da família, da comunidade e da sociedade em geral – é quebrada e destruída.

O homem discreto é senhor de si mesmo, e admirado por todos. O homem indiscreto segue seus instintos mais baixos, e é desprezado por todos.

Vejamos como ser discreto em nossa conversa, seguindo o nosso Manual de Civilidade.

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A discrição, filha da humildade e da prudência, é um dos adornos mais belos da virtude da caridade.

Consiste basicamente na honestidade elementar e indispensável que move o homem a guardar sua língua com respeito à vida do próximo. O homem discreto irá cobrir um defeito ou falha de outro. Ele vai lançar uma sombra protetora sobre os erros dos outros.

A discrição sabe como manter um segredo, ocultar um assunto confidencial em um silêncio prudente; fechar os ouvidos para conversas insidiosas geradas por inimizades pessoais. Em suma, um homem deve exercer a discrição em todas as circunstâncias da vida diária.

Quando a reserva é necessária

Imperador Carlos I da Áustria-Hungria, um modelo de discrição

Em um almoço privado que teve lugar há algum tempo em São Paulo, cinco burocratas e um General estavam presentes. Vários anos antes, o último foi o líder de um partido político que perdeu as eleições mais importantes da cidade. Os burocratas, inteligentes, curiosos e dados a intrigas, tentaram fazer com que o General dissesse suas opiniões pessoais sobre os seus colegas na eleição. O General percebeu rapidamente jogo deles. Ele prestou sincera homenagem, várias vezes, ao talento, abnegação e mérito dos outros líderes. Ele deixou toda a responsabilidade pela derrota cair sobre si mesmo. Ele não disse nada, indicou nada que pudesse manchar um pouquinho que fosse os nomes dos outros políticos.

Aqui está um magnífico exemplo de discrição. Certamente, o General poderia ter sido tentado a distribuir a culpa pelo fracasso para ganhar a eleição entre os líderes de diversos partidos. Mas ele não o fez.

Agora, alguns exemplos de pessoas que indiscretas:

  • Durante uma visita, ele divulga fatos dolorosos ou constrangedores sobre os outros que ainda estão vivos ou cuja memória continua presente entre as pessoas da reunião;
  • Ele revela um acontecimento que a família ou indivíduo gostaria de cobrir ou não está ainda pronta para tornar públicos;
  • Ele insiste em ser introduzido, mesmo quando é dito que o dono da casa está ocupado ou não está;
  • Ele faz um telefonema ou visita durante as horas que são inoportunas;
  • Ele se esgueira com olhares imprudentes para as cartas, as embalagens ou objetos particulares de outras pessoas em sua presença ou ausência.


Mais exemplos de indiscrição

Se você está falando com uma pessoa e outra pessoa chega, que também gostaria de falar com ela, seria indiscreto não cortar sua breve conversa para que ela possa assistir à segunda pessoa.

Discrição consiste em respeitar o tempo e a liberdade de ação de seu próximo. É indiscreto ocupar o tempo dos outros com conversa fiada, perturbando o seu trabalho e ocupações cotidianas e atividades.

Seria indiscreto e até mesmo impertinente alguém visitar a casa do outro e dispor livremente – seja convidado ou não – dos livros, objetos e móveis, removendo-os do seu lugar, dar ordens aos empregados, mudar o cronograma da família para acompanhar a sua conveniência, em suma, arrogar para si o título de lorde independente.

Assuntos familiares íntimos são sagrados

Não se intrometa na vida privada de seu próximo

Se a hospitalidade é sagrada, assim também é que o cliente viu, observou, notou, forma inesperada no que diz respeito às pessoas e coisas, durante sua visita a uma casa de família. Não há quase nada tão odioso quanto um homem violar os segredos de uma família em cuja casa ele foi bem recebido e recebeu um bom tratamento. O que pode ser mais desprezível do que uma pessoa que, depois de desfrutar da hospitalidade e exibindo amizade mútua e boa-fé, espalha aos quatro ventos as coisas menos edificantes que ele viu na casa?

A pessoa que, consciente ou inconscientemente proclama assuntos particulares dos outros é odioso a Deus, assim como aos homens. Quem encontra um objeto de valor, um documento ou uma carta em um lugar público é obrigado a devolvê-lo ao seu dono, porque o fato de encontrá-lo não confere o direito de propriedade. Assim também, quem por acaso ou artifício, se depara com alguma questão particular do próximo, não tem o direito de divulgá-la. Revelar tais defeitos ou falhas seria uma falta mais grave caso venha a resultar em danos a autoridade da pessoa, ou a desonra de seu bom nome.

Nosso próximo tem direito ao seu bom nome, sua reputação. Detrair é cometer um ato de difamação, que etimologicamente significa atentar contra a fama de alguém. É má ação diante de Deus e dos homens.

O mal causado por palavras indiscretas

Uma palavra de Eva em resposta à serpente – quando ela não deveria ter respondido a ela – foi a causa da ruína da humanidade inteira.

Uma palavra que as filhas de Israel, disseram em louvor de Davi, preferindo-o Saul, foi a causa de uma grande revolução naquela monarquia, obrigando Davi a se tornar um fugitivo e ser perseguido por muitos anos.

Uma palavra que escapou de Henrique II, Rei da Inglaterra, fez com que quatro de seus vassalos sacrilegamente assassinassem o arcebispo da Cantuária, São Tomás Becket, dentro de sua própria igreja.

Com uma palavra impensada, um segredo é divulgado, ao pôr a descoberto um segredo, um reino pode ser perdido.

Quantas famílias inteiras nunca poderiam apagar uma mancha na sociedade causada por essas simples palavras – “Você ouviu essa?”

 

Original aqui.