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S.S. Pio XII –  Alocução às meninas da Ação Católica, 6 de outubro de 1940.[1]

(Esta é a hora da juventude católica.)

 Se amanhã o mundo não desejar permanecer para sempre enterrado na sombra da morte, ele terá que se ocupar em reparar as suas perdas, reconstruir as ruínas. Nesse momento você deve colaborar, Juventude Católica! E que maravilhosos empreendimentos aguardam a sua colaboração! Para reconstruir a sociedade sobre uma base cristã; para pôr em estima e honra o Evangelho e sua moral; para renovar a vida da família, restaurando ao matrimônio a sua coroa – sua dignidade sacramental, e ao marido e à mulher o sentido de suas obrigações e a consciência de sua responsabilidade; para estabelecer em toda a sociedade a noção genuína da autoridade, da obediência, do respeito pela lei, dos direitos e deveres recíprocos do homem. Esse é o seu amanhã.

Uma de suas grandes tarefas será a de ensinar a doutrina de Cristo. O mundo é dominado hoje em grande parte pelo “laicismo”: a tentativa do homem de agir sem Deus. É uma iniciativa vã e ímpia, que assume diferentes aspectos e títulos de acordo com a variedade de tempo e lugar: indiferença, descuido, desprezo, revolta, ódio. Este último, o mais perverso de todos, felizmente, não é freqüentemente encontrado em famílias nutridas pelo cristianismo há séculos, mas muitas vezes o desenvolvimento, o progresso, a difusão da ciência e das máquinas e os progressos no bem-estar material causaram em muitas pessoas uma crescente indiferença para com Deus e para com as coisas divinas. Os homens acreditam que dependem menos diretamente de Deus, agora que ganharam para si um padrão mais elevado de bem-estar material aqui embaixo. Eles ingratamente esquecem que tudo o que temos é um dom de Deus: quer se trate das forças da natureza que eles aproveitam, quer das suas próprias faculdades intelectuais e físicas – precisamente os instrumentos de seu sucesso e de suas vitórias.

Em outras épocas – não em si totalmente imune de falhas e erros – uma fé religiosa penetrava e invadia o conjunto da sociedade, especialmente a vida familiar, sendo as paredes adornadas com o crucifixo e imagens piedosas. A literatura e a arte da casa eram baseadas na Bíblia. As cidades, vilas, montanhas, nascentes levavam os nomes dos santos, ao longo das vias na zona rural e em cruzamentos, o viajante contemplava a imagem de Cristo crucificado e de Sua Mãe Santíssima. Parecia que tudo, o próprio ar, falava de Nosso Senhor, porque os homens viviam em contacto estreito com Deus, viviam conscientes de sua presença universal e de seu poder soberano. O sino da igreja os acordava, convidava-os para o sacrifício divino; a oração do Angelus três vezes ao dia, para as funções de sagrado; governava a rotina diária de trabalho, assim como o sacerdote assegurava que o trabalho fosse bem feito. Cada família de então possuía um catecismo, uma história da Bíblia, muitas vezes, também, a vida dos santos para cada dia do ano. Mas quantas casas existem hoje, mais ou menos desordenadas com várias publicações, com romances e contos, mas com a falta daqueles livros! Quantos pais não estão, justamente, ansiosos para garantir que seus filhos aprendam bem as regras de higiene, mas dificilmente prestam todos estes cuidados à sua educação religiosa!

Ensinando do catecismo

Nossos venerados predecessores muitas vezes lamentaram publicamente o desconhecimento da doutrina cristã e os graves prejuízos para as almas que resultam disso. Devido a esse fato, a Ação Católica, nunca surda às palavras dos pontífices romanos, considera como uma das suas funções essenciais, bem como a formação religiosa e moral dos seus membros, também a sua preparação para o ensino do catecismo: pois o catecismo é o fundamento do conhecimento Cristão e da vida Cristã. Aquelas jovens moças que hoje ardentemente desejam fundar uma família cristã (e não há muitos entre vós que têm precisamente esse desejo?) devem se preparar e treinar para ser, se não as doutoras da religião, pelo menos as professoras. Mais do que uma de vocês, no futuro, pode perceber que a mulher deve lembrar o seu marido, com infinito tato, sabedoria e paciência, das verdades da fé e dos preceitos do Evangelho. Certamente terá que fazê-lo para seus filhos, em qualquer caso, mas não estará cheia de apreensão ou medo desse dever, se adquiriu experiência e prática em tempo útil, no âmbito da Ação Católica.

Ensinar e instruir uma alma é ao mesmo tempo “dar e receber”, o que corresponde perfeitamente com uma das ambições mais belas do seu sexo e da sua idade. A menina, a mulher que se torna professora da verdade e da bondade dá aos outros algo do tesouro da sua alma e de seu coração, através do seu trabalho falado; ela dá a si mesma para formar uma vida espiritual, da mesma forma como uma mãe dá a si mesma para a constituição física de seu filho, às vezes heroicamente, sacrificando até mesmo sua própria vida.

(Agradecimentos ao linho do altar oferecido pelo movimento.)

Moda e modéstia

Vocês que piedosamente vestem o altar e o sacrário nunca devem esquecer que carregam Deus dentro de si pela habitação da graça em suas almas. Essa presença divina faz não só suas almas, mas também seus corpos, templos sagrados. O apóstolo Paulo escreveu em sua primeira epístola aos Coríntios: “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?” Certamente vocês sabem que vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós. E que Ele é dom de Deus para vós, de forma que vós já não vos pertenceis”.[2]

A consciência da habitação divina, da nossa incorporação em Cristo, tem através dos séculos, desenvolvido um respeito religioso para com o corpo em povos dóceis ao espírito do Evangelho. Esse respeito se manifesta no adorno da pessoa humana, no comportamento e na atitude, na fala sabiamente regulamentada e cuidadosamente medida: em uma palavra, modéstia. O mesmo apóstolo, nos primeiros anos da Igreja, desejava que as mulheres usassem o véu nas funções sagradas, e de novo para os Coríntios escreveu: Julgai vós mesmos: é decente que uma mulher reze a Deus sem estar coberta com véu? No entanto, para a mulher é glória ter longa cabeleira, porque os cabelos lhe foram dados como véu”.[3]

Este ano vocês têm dado o primeiro lugar em seus projetos para a “grande cruzada da pureza”, a mesma pureza da qual a modéstia é a salvaguarda. Assim como a natureza colocou em cada criatura o instinto de autopreservação no que diz respeito à vida da criatura e da integridade dos seus membros, assim, consciência e graça, que não destroem a natureza, mas a aperfeiçoam, colocam na alma, por assim dizer, um sentido que se torna vigilante contra os perigos que ameaçam a pureza. Essa é uma característica especialmente da jovem cristã. Lemos na “Passio SS. Perpetuae et Felicitatis” – com justiça considerada uma das jóias mais preciosas da literatura cristã  primitiva – que, no anfiteatro de Cartago, quando a mártir Vibia Perpétua, jogada para o alto por uma vaca selvagem, caiu no chão, seu primeiro pensamento e ação foi arrumar o vestido de modo a cobrir sua coxa, porque ela estava mais preocupada com a modéstia do que com a dor.[4]

Moda e modéstia devem andar de mãos dadas como duas irmãs, porque ambas as palavras têm a mesma etimologia: elas derivam do latim “modus”, significando a medida certa, e qualquer desvio em uma direção ou outra é considerada não reta, não razoável[5]. Mas a modéstia não é algo apartado da moda. Muitas mulheres, como pobres, tolas criaturas que perdem o instinto de autopreservação e a idéia de perigo, e então jogam-se em incêndios e rios, têm esquecido a modéstia cristã por causa da vaidade e da ambição: caem miseravelmente em perigos que podem significar a morte de sua pureza. Elas entregam-se à tirania da moda, mesmo que a moda seja indecente, de forma a não parecer nem mesmo suspeitarem que isso é inconveniente. Elas perderam o próprio conceito de perigo: elas perderam o instinto de modéstia.

Ajudar essas mulheres infelizes a reconhecer suas obrigações morais será o seu apostolado, a sua cruzada em todo o mundo: “Seja a vossa modéstia conhecida de todos os homens”.[6]

Exemplo

Seu apostolado será realizado, acima de tudo pelo bom exemplo. Será o dever de seu amado Presidente, de seus líderes sábios, ensinar-lhes que antes de vocês colocarem um vestido, vocês devem se perguntar o que Jesus Cristo iria pensar disso; eles vão avisá-las que, antes de aceitar um convite, vocês devem considerar se o seu invisível guardião celestial poderá acompanhá-las, sem cobrir seus olhos com suas asas; eles vão dizer-lhes quais teatros, quais companhias, quais praias evitar; eles vão mostrar a vocês como uma garota pode ser moderna, culta, esportiva, cheia de graça, naturalidade e distinção, sem ceder a todas as vulgaridades de uma moda doentia, mas preservando uma aparência que não tem artificialidades, assim como a alma que essa aparência reflete, um semblante sem sombra, quer interior quer exterior, mas sempre reservado, sincero e franco. Recomendamos, acima de tudo, rezar para a corajosa e ativa defesa de sua pureza. Recomendamos especialmente a devoção à Eucaristia e à Virgem Maria Imaculada, a quem vocês estão consagradas.

Na Eucaristia vocês encontram a Deus, a pureza em si, porque Ele é infinitamente perfeito. Quando Ele se entrega a vocês, – agrada-nos repetir as palavras do profeta – “O trigo dará vigor aos jovens, e o vinho às donzelas”[7]. Nosso Senhor, “que é uma efusão da luz eterna, um espelho sem mácula”[8] purifique suas almas e suas faculdades, seus corpos e seus sentidos. Quanto mais uma criatura se aproxima de Deus, mais se une a Ele, mais pura se torna e mais ela deseja a pureza, mais ela tende para Aquele que é o Ser puro.

Quando o Verbo desejou tornar-se carne e nascer de uma mulher, colocou o seu olhar sobre o mais perfeito ideal de Suas criaturas: uma moça na graça de sua virgindade. Quando essa graça foi unida por um milagre singular à graça da maternidade divina, sua beleza era tão sublime, que os artistas, poetas, santos aspiravam ardentemente, mas sempre em vão, dar-lhe expressão adequada. A Igreja e os seus anjos a saúdam com os títulos de Rainha e Mãe, inúmeros são os títulos com os quais a piedade dos fiéis a coroou como um diadema de um milhar de jóias. Mas de todos esses títulos de glória, um é particularmente caro a ela, e descreve a sua perfeição: a Virgem.

Que essa Virgem das Virgens, Maria, Rainha do Santo Rosário, seja o seu modelo e sua força durante toda sua vida como jovens mulheres católicas e, especialmente, na sua cruzada pela pureza.

 


[1] Papal Teaching, The Woman in the Modern Word, St. Paul Editions (1958)

[2] I Cor 6, 15.19

[3] I Cor 11, 13.15

[4] Cf. Ed Franci de Cavalieri, 1896, p. 142-144

[5] Horace Sermones, I, 1, 106-107

[6] Fil 4, 5 N.T. No original “modestia vestra nota sit omnibus hominibus Dominus prope”.

[7] Zac 9, 17

[8] Sab 7,26